2- Moksada Ekadasi
Maharaja Yudhisthira disse: "Ó Vishnu, mestre de todos, ó deleite dos três mundos, ó Senhor do universo, ó criador do mundo, ó mais idosa das personalidades, ó melhor de todos os seres, eu ofereço minhas mais respeitosas reverências a Você."
"Ó Senhor dos senhores, para o benefício de todas entidades vivas, responda algumas perguntas que eu tenho, qual o nome do Ekadasi que ocorre durante o quarto crescente do mês margasirsa (novembro/dezembro), o qual remove todos os pecados? Como alguém deve observá-lo corretamente e qual é a deidade adorável neste dia santo? Ó Senhor, por favor, explique isto para mim."
O Senhor Sri Krishna respondeu: "Ó Yudhisthira, sua pergunta é mui auspiciosa e lhe trará fama. Assim como lhe expliquei anteriormente o querido Utpanna maha-dvadasi (nota 1), o qual ocorre durante o quarto minguante do mês margasirsa (novembro/dezembro), e que foi o dia quando Ekadasi-devi apareceu do Meu corpo para matar o demônio Mura, beneficiando a todos seres animados e inanimados nos três mundos, assim mesmo devo lhe explicar agora o Ekadasi que ocorre no quarto crescente do mês margasirsa. Este Ekadasi é famoso como Moksada por que purifica o devoto fiel de todas as reações pecaminosas concedendo-lhe a liberação. A deidade adorável deste dia é o Senhor Damodara. Com toda atenção deve-se adorá-lo com incenso, lamparina de ghee, flores e manjaris de Tulasi."
"Ó melhor dos reis, por favor, ouça enquanto Eu narro para você a história antiga e auspiciosa deste Ekadasi. Simplesmente por ouvir esta história, pode-se obter o mesmo mérito alcançado pela execução de um sacrifício asvamedha. E pela influência deste mérito, os antepassados, mães, filhos e outros parentes que foram ao inferno, vão ao céu. Somente por esta razão, ó rei, você deve ouvir cuidadosamente esta narração."
"Certa vez, Havia uma bela cidade chamada Campakanagara, a qual estava habitada por vaishnavas devotados. Ali o melhor dos reis santos, maharaja Vaikhanasa, governava seus súditos como se fossem seus próprios filhos e filhas. Os brahmanas nesta capital eram bem expertos nos quatros tipos de conhecimento védico. Enquanto governava apropriadamente, o rei certa noite teve um sonho no qual seu pai estava sofrendo as dores da tortura em um planeta infernal. O rei ficou tomado de compaixão e chorou. Na manhã seguinte, maharaja Vaikhanasa narrou seu sonho ao seu conselho de brahmanas duas vezes nascidos."
"Ó brahmanas, "disse o rei," em um sonho na última noite eu vi meu pai sofrendo em um planeta infernal. Ele estava gritando: "Ó filho, por favor liberte-me do tormento deste inferno. Agora eu não tenho paz e até mesmo este belo reino tornou-se insuportável para mim. Nem mesmo meus cavalos, elefantes e quadrigas me dão alguma alegria e meu vasto tesouro não me dá nenhum prazer."
“Tudo, ó sábios brahmanas, até mesmo minha própria esposa e filhos, tornou-se fonte de infelicidade desde que soube, que meu querido pai está sofrendo as torturas do inferno. Onde devo ir? Que devo fazer? Ó brahmanas, para aliviar este sofrimento? Meu corpo está queimando de temor e lamentação! Por favor, digam-me qual o tipo de caridade, qual o modo de jejuar, qual a austeridade ou qual a meditação profunda que tenho que executar, para libertar meu pai desta agonia e conceder a liberação ao meus antepassados? Ó melhores dentre os brahmanas, Qual a vantagem de se ter um filho poderoso se o próprio pai sofre em um planeta infernal? De fato, a vida de tal filho é totalmente inútil!"
"Os brahmanas duas vezes nascidos responderam: "Ó rei, na floresta da montanha, não muito distante daqui há um asrama onde reside o grande santo Parvata muni. Por favor, vá até lá, pois ele conhece o passado, presente e o futuro de tudo e certamente lhe ajudará em sua miséria"
"Após ouvir este conselho, o sofrido rei partiu imediatamente numa viagem ao asrama do famoso sábio Parvata muni. O asrama era muito grande e abrigava muitos sábios eruditos expertos no cantar dos hinos sagrados dos quatros vedas (nota 2). Aproximando-se do sagrado asrama, o rei viu Parvata muni sentado entre os sábios como se fosse um outro senhor brahma, o criador não nascido."
"Maharaja Vaikhanasa ofereceu as suas humildes reverências ao muni (sábio), curvando sua cabeça e então prostando todo seu corpo. Após o rei ter se acomodado, Parvata muni perguntou-lhe sobre o bem estar dos sete membros do seu extenso reino (nota 3). O muni também lhe perguntou se o reino estava livre de problemas e se todos estavam em paz e felizes. Para estas perguntas o rei respondeu: 'Por sua misericórdia, ó sábio glorioso, todos os sete membros do meu reinado estão indo muito bem. Mesmo assim, há um problema que surgiu recentemente e para resolvê-lo vim lhe procurar, ó brahmana, buscando seu conselho experto."
"Então Parvata muni, o melhor de todos os sábios, fechou os olhos e meditou no passado presente e futuro do pai do rei. Após alguns momentos ele abriu seus olhos e disse: 'Seu pai está sofrendo os resultados de ter cometido um grande pecado e eu descobri qual foi este pecado; em sua vida anterior ele brigou com a esposa quando desejava desfrutar sexualmente dela, durante o período menstrual. Ela tentou resistir aos avanços dele e gritou: "Alguém por favor me salve! Por favor, ó marido, não interrompa meu período mensal!” Mesmo assim ele não a deixou só. É devido a este grande pecado que seu pai caiu em total condição infernal."
"Então o rei Vaikhanasa disse: “Ó maior dos sábios, por qual processo de jejum ou caridade eu posso libertar meu querido pai de tal condição? Diga-me, por favor, como poderei remover a carga de suas reações pecaminosas, as quais são um grande obstáculo ao progresso dele rumo à liberação última."
"Parvata muni respondeu: 'Durante o quarto-crescente do mês Margasirsa (novembro/dezembro) ocorre um certo Ekadasi chamado Moksada. Se você respeitar estritamente este Ekadasi sagrado, jejuando completamente e dando diretamente ao seu pai sofredor o mérito que obter desta maneira, ele se livrará do sofrimento e liberta-se-á imediatamente."
"Ouvindo isto, maharaja Vaikhanasa agradeceu profundamente ao grande sábio e retornou então ao seu palácio. Ó Yudhisthira, quando finalmente chegou o quarto-cescente do mês Margasirsa, maharaja Vaikhanasa observou o jejum de Ekadasi fiel e perfeitamente junto com a esposa, filhos e outros parentes. Ele deu devidamente o mérito do jejum ao seu pai e enquanto fazia o oferecimento, belas flores caíram do céu. O pai do rei foi então louvado pelos mensageiros dos semideuses e conduzido às regiões celestiais. Enquanto passava por seu filho, o pai disse ao rei: 'Meu querido filho, toda a auspiciosidade a você!' Por fim ele chegou ao reino celestial (nota 4)."
"Ó filho de Pandu, quem quer que observe estritamente o sagrado Moksada Ekadasi, seguindo as regras e regulações estabelecidas, alcança liberação plena e perfeita após a morte. Ó Yudhisthira, não há melhor dia para se jejuar do que este Ekadasi do quarto-crescente do mês Margasirsa, pois este é um dia impecável e claro como o cristal. Quem quer que fielmente observe este jejum do Ekadasi, o qual é como a jóia Cintamani (que concede todos os desejos), alcança um mérito especial que é muito difícil de calcular, pois este dia pode elevar a pessoa aos planetas celestiais e além; à liberação perfeita."
Assim acaba a narração das glórias do Margasirsa-sukla Ekadasi ou moksada Ekadasi do Brahmananda Purana.
Notas:
1-Quando o Ekadasi cai em combinação com o Dvadasi, os devotos o chamam de maha-Dvadasi, e o jejum de cereais e feijões é feito neste (maha) Dvadasi, isto é devido a uma instrução do senhor Brahma à Garuda.
2-Os quatros vedas são: Sama, Yajur, Rg e Atharva.
3-Os sete membros do domínio de um rei são: o próprio rei, seus ministros, seu tesouro, suas forças militares, seus aliados, os brahmanas, os sacrifícios executados em seu reino e as necessidades de seus súditos.
4-Se alguém observa o jejum de Ekadasi para um antepassado falecido que esteja sofrendo no inferno, então o mérito assim obtido capacita o antepassado à deixar o inferno e entrar no reino celestial onde então poderá praticar serviço devocional a Krishna ou Vishnu e ir de volta ao Supremo. Mas aquele que observa Ekadasi para sua própria elevação espiritual, volta ao Supremo pessoalmente, nunca retornando ao mundo material.
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